Se alguém sentiu a ressaca do carnaval, esse alguém foi o Ibovespa. Enquanto os brasileiros festejavam por todo o país, os contágios por coronavírus aumentavam em diversos países. O Brasil, infelizmente, também entrou nessa roda. 

Como a Bolsa estava fechada, o impacto veio todo de uma vez: queda de 7% só na quarta-feira de cinzas e quase 10% numa semana que teve dois pregões e meio. É a segunda pior semana desde 2008, quando o mundo vivia o epicentro da crise financeira internacional. 

Os impactos de curto prazo na economia já apareceram. Muita gente já começa a acreditar que uma recessão global está virando a esquina. O pânico é geral, mas nem tudo está perdido. Esse especial vem justamente para situar o investidor sobre o que está em jogo e como se posicionar neste momento.
 

Os destaques da semana:

  • Especial coronavírus: PÂNICO! PÂNICO! PÂNICO!
  • Corporativo: Minério no fundo do oceano e mais balanços.

Lá fora...

O vírus ainda segue assustando depois de ter saído da China e ter migrado para países como Itália, Irã, Nova Zelândia, Lituânia e Nigéria, com novos números de infectados. Novamente, a luz se acende alertando para um impacto mais forte na economia global e aumenta o temor de uma pandemia. 
 
As Bolsas europeias sofreram com o cenário de uma infecção generalizada, contagiando o S&P 500 para as maiores quedas desde 2011. Os recentes casos na Europa abriram precedente para a escalada do medo. As ADR’s (que são as empresas brasileiras negociadas nas bolsas internacionais) da Petrobras e Vale despencaram nos dias de carnaval.
 
Na China, os números preliminares da economia mostram que o coronavírus já chegou a “machucar” o consumo e a produção, afetando a indústria, o varejo e até o setor de transportes. 
 
Por outro lado, e como comumente já visto, a corrida para ativos tidos como proteção (como o ouro e iene) aumenta em cenários conturbados.
 
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump deu uma declaração sobre a situação e a considerou uma séria ameaça à saúde, porém considerou o risco comparável a uma gripe comum em termos de taxa de mortalidade. 
 
Não podemos fechar os olhos para um possível aumento do risco para a atividade econômica global. Os choques que estamos vendo no curto prazo não vêm pura e simplesmente das pessoas infectadas. Isso se dá pelo fechamento de algumas cidades (lockdown) e pelo processo de quarentena, forçando as fábricas a pararem a produção, proibindo que pessoas saiam de casa, restringindo o comércio entre os países e viagens de um modo geral. Dessa maneira, toda a cadeia produtiva e de consumo fica extremamente prejudicada.

Aqui dentro...

Imagine esse combo: desaceleração do índice de confiança do consumidor, das vendas do varejo, do IPCA e da produção industrial, somando tudo isso a uma preocupação com a economia global. Foi a deixa para quem ainda não tinha encerrado suas posições começar a fazê-lo. Em meio a qualquer cenário de incerteza, o mercado aproveita para realizar lucro, o que faz muito sentido, visto que no ano passado a nossa Bolsa subiu mais de 30%. Uma hora ou outra, a realização aconteceria. 

Já sabemos que o pós-carnaval não foi fácil para o mercado. Na terça-feira, enquanto muitos estavam curtindo a festa mais famosa do Brasil, o primeiro caso de coronavírus era confirmado em terras tupiniquins vindo diretamente da Itália, região em que o vírus tem se propagado bastante.

Um caso confirmado e muitos suspeitos. Foi o suficiente para observarmos a pior performance do Ibovespa em quase 10 anos e para trazer à tona casos como o Joesley Day, quando a Bolsa passou por um circuit breaker depois de uma delação premiada que quase derrubou o, até então presidente, Michel Temer. Outra crise que voltou a memória dos investidores foi a greve dos caminhoneiros, que paralisou o País há dois anos. O curioso é que ambos os casos aconteceram em maio de 2017 e 2018, respectivamente. Será que teremos alguma surpresa para maio de 2020? 

Surpresa ou não, fato é que o Ibovespa voltou para o patamar dos 100 mil pontos e, pra quem não lembra, quando essa região foi rompida muita gente fez festa e muita gente veio pra Bolsa. Quanto às duas “crises” que comentamos, depois do caos, veio a bonança. A incógnita é se a bonança chegou ou se as quedas continuam. O que fazer agora?

O que fazer agora.

Apesar do pânico generalizado, continuamos acreditando que esse momento de turbulência irá acabar nos próximos meses. Os processos de contenção nos diversos países contaminados estão a pleno vapor e agências internacionais trabalham incansavelmente em busca de vacinas e tratamentos. Ainda, por pior que pareça a situação, o vírus ainda se mostra pouco letal, mesmo que sua capacidade de disseminação impressione.

É nesse contexto que descontos excessivos acontecem. Muitas empresas e economias não devem sofrer impactos permanentes em suas atividades uma vez que voltemos à normalidade. Por isso, o investidor pode encontrar boas oportunidades ao longo das próximas semanas.

Isso quer dizer que o pior já passou? Não necessariamente. As turbulências não parecem próximas do fim. A Bolsa pode sim continuar caindo forte nos próximos dias, o que significa que não é hora também para pular de cabeça.

Precisar quando atingiremos o fundo é praticamente impossível, por isso, para os investidores de longo prazo a estratégia é ir comprando aos poucos, colocando os pés na água gradativamente. Dessa forma, é possível se aproveitar dos preços mais baixos sem se expor demais.

A calma será uma virtude importante. A paciência para lidar com o sobe e desce também. Mas para quem olha lá pra frente, nem tudo está perdido.

Minério afundando.

Sim, a tensão crescente com o coronavírus vem impactando a cotação do minério de ferro nos mercados internacionais, mas esse não será nosso assunto de agora.

Na segunda-feira (24), enquanto grande parte da população pulava carnaval, a tripulação de um navio, que transportaria minério de ferro da Vale (VALE3) para a China, detectou entrada de água em compartimentos de carga.

Correndo o risco de naufragar, o comandante encalhou a embarcação, o MV Stellar Banner, em um banco de areia a cerca de 100km da costa de São Luís (MA). O navio partia do Maranhão em direção à Qingdao, na China, com uma carga de cerca de 275 mil toneladas de minério de ferro.

A tripulação já foi evacuada, está em segurança e a Vale conta com apoio da Petrobras (PETR4) para evitar um eventual vazamento de óleo do navio.

Temporada de Balanços!

Apesar do coronavírus roubar momentaneamente o protagonismo dos resultados das empresas, a temporada de balanços segue firme e forte.

A Ambev (ABEV3) reportou crescimento de 22% no lucro líquido do 4T19 frente ao mesmo período do ano anterior. Entretanto, a crescente pressão nos custos e o aumento da concorrência ligaram o sinal de alerta do mercado, que não gostou muito do resultado.

A AES Tietê (TIET11) apresentou crescimento de 4,2% no lucro líquido anual e de 13% na receita operacional líquida, que foram, em partes, ofuscados pelo avanço de cerca de 19% nos custos e despesas operacionais e pela queda de margem líquida. 

Por último, a Marcopolo (POMO4) registrou alta de 11,1% no lucro líquido consolidado de 2019 frente ao ano anterior. O resultado divulgado mostrou também piora, em certo grau, na geração de caixa, nas margens da Companhia e nas receitas de exportação.