Quando tudo parecia ir (lentamente) se encaminhando, com a epidemia perdendo força em vários países e as estratégias de enfrentamento mais ou menos bem definidas pelo mundo, uma nova onda vem afogar o noticiário: o então “super-ministro” da Justiça, Sérgio Moro, pediu demissão do cargo em meio às divergências em torno do comando da Polícia Federal.

Que a relação dele com Bolsonaro não ia bem, não era novidade para a maioria das pessoas, mas sua saída aumenta a instabilidade política. Levanta, inclusive, rumores da saída do também “super-ministro” Paulo Guedes, da mudança drástica na condução do governo ou até mesmo de uma possível queda do próprio Presidente.

Em meio a tudo isso, juntou-se a forte volatilidade no mercado de petróleo, com armazéns cheios e os preços em queda, além da notícia de que um dos remédios mais promissores para o tratamento da Covid-19, o Remdesivir, falhou logo nos primeiros testes clínicos aos quais foi submetido.

E nessa maré ruim, o Ibovespa apagou a alta da semana, quase atingiu novo circuit breaker e fechou a semana em queda de 4,68%. E o dólar? Chegou a beliscar o patamar de R$5,75, mas deu uma respirada para fechar a semana próximo de R$5,60, pelo menos por enquanto.

Os destaques da semana:

  • Política e Economia: A saída de Moro.
  • Corporativo: Retorno.
  • Torocast: É bom ou é ruim?
  • Em destaque: Os Klein e a Via Varejo.
  • No exterior: Petróleo abaixo de zero e remédio contra o Covid-19.

Nova substituição

Se as lives musicais vêm movimentando a quarentena pelo País, nada se compara com o impacto das duas lives desta sexta-feira (24). Às 11h, foi a vez do então Ministro da Justiça, Sérgio Moro, para anunciar sua saída do governo. O motivo? Bolsonaro teria insistido na troca da direção da Polícia Federal à revelia de Moro, com o objetivo de influenciar politicamente na corporação e nas investigações que ela comanda.

As acusações ao Presidente caíram como uma bomba e levantaram mais uma vez questionamentos sobre a continuidade do mandato de Bolsonaro. O Ibovespa mergulhou e por muito pouco não ativou novo circuit breaker.

A grande preocupação do mercado é que a instabilidade política agrave ainda mais a capacidade de resposta do País à crise, ao mesmo tempo em que já circulam informações de que Paulo Guedes, Ministro da Economia, poderia ser o próximo a pedir a conta.

A informação não é de todo improvável, tendo em vista o desconforto de Guedes com diversas das medidas de enfrentamento à pandemia, especialmente com o recém-anunciado plano Pró-Brasil. Ainda que pouco delineado, o plano não teve o envolvimento da equipe econômica e teria sido a gota d’água da preocupação do Ministro com os impactos fiscais das medidas.

Mas não foi só a live de Moro que mexeu com os ânimos no final desta semana. Bolsonaro convocou uma conferência de imprensa para às 17h para se defender das acusações. Nela, reforçou sua prerrogativa de realizar trocas em órgãos federais e acusou Sérgio Moro de tentar desestabilizar ele e seu governo.

Para além da briga pessoal entre ambos, o pronunciamento foi importante por trazer à sua volta todos os demais ministros, incluindo Paulo Guedes, em um sinal de que a saída no Ministério da Justiça pode ser um caso isolado. Os contratos futuros do Ibovespa (que encerrou suas negociações justamente no início do pronunciamento) subiram cerca de 2% durante a fala de Bolsonaro. A ver como se desenrolam os próximos dias.

Desquarentenando

Ao longo das últimas semanas, o impacto do coronavírus e da quarentena vem sendo o assunto mais comentado no cenário corporativo, com as empresas anunciando fechamentos de plantas, paralisações, suspensão de funcionários, procura por reforço de caixa, etc.

Nessa semana, vimos algumas companhias começando a anunciar retomadas. O surto pandêmico ainda não está solucionado e a quarentena não está totalmente acabada, mas já é possível repararmos algum sinal de um movimento de volta gradual à normalidade.

Seguindo as deliberações do poder público e determinações para cada região, as Empresas estão buscando retomar as operações dentro do possível. O Iguatemi (IGTA3), por exemplo, anunciou a volta à operação de um shopping em Santa Catarina. A Lojas Renner (LREN3), a Grendene (GRND3), a Via Varejo (VVAR3), a Grazziotin (CGRA4) e a Guararapes (GUAR3) anunciaram que estão em processos graduais de reabertura de lojas. A Azul (AZUL4) também anunciou que está retomando aos poucos voos internacionais partindo de Campinas - SP em direção a destinos nos EUA e na Europa.

Os setores que mais sofrem

Conforme vai se desenhando que a pandemia do coronavírus deve durar mais do que imaginávamos, os investidores não podem deixar de se posicionar, mesmo com tanta incerteza pairando.

Como já falamos diversas vezes, por mais delicada e complicada que seja a crise atual, é sempre possível separar aqueles setores que devem navegar melhor ou pior durante esse período. Nossos analistas, Lucas Carvalho e Paloma Brum, explicam esses impactos e quais setores chamam mais a atenção do mercado no novo episódio do Torocast. Confira!

A Grande Família

A Família Klein é muito unida e também muito ouriçada. Não sabemos se brigam por qualquer razão, mas acabam pedindo perdão. Estamos falando, é claro, dos comandantes da Via Varejo (VVAR3).

Essa história de pirraça pai, pirraça mãe e pirraça filha acaba sendo diferente quando estamos contando a trajetória dos Klein a frente da Varejista. Na verdade, o primeiro a “pirraçar” foi o avô, o senhor Samuel Klein, fundador das Casas Bahia. Depois o trono foi para o filho, Michael Klein. Mas, na segunda-feira (20), o reinado foi entregue ao jovem Raphael Klein, neto do fundador.

Apesar da brincadeira, não houve nenhuma “pirraça”, muito pelo contrário. A saída de Klein filho aconteceu com toda “pompa e circunstância”, tanto que o presidente da Via Varejo enalteceu a performance de Michael Klein chegando a afirmar a importância do seu papel “nesse reerguimento da Companhia”. Assumindo o Conselho, Raphael Klein vai conseguir tocar aquilo que seu pai já havia começado: o avanço do e-commerce da Via Varejo.

Em nota, a Empresa ressaltou a longa e eficiente história do novo presidente do Conselho dentro da Companhia, evidenciando a vivência com a própria marca Casas Bahia e sua experiência na área de tecnologia, afinal, como já contamos para vocês, tecnologia segue em alta.

Concluímos que mudaram as gerações e, por mais que você pense que nada mudou, nós acreditamos que alguma coisa aconteceu e a Via Varejo também. Fala-se em uma segunda fase mais voltada à transformação digital, mas cabe agora ao Klein neto manter a boa fama da família e avançar para o futuro tecnológico tão esperado pela Via Varejo.

Toc! Toc! Posso deixar meu petróleo aí?

A semana foi marcada por um evento nunca antes visto no mercado de petróleo. Os preços do contrato futuro de maio caíram abaixo de zero, afetando as bolsas mundiais e fazendo o S&P 500, principal índice americano, cair quase 5% já no início da semana. O petróleo WTI (referência do mercado americano) chegou a ser cotado a -US$40,00.

O fato ocorreu devido aos impactos causados pelo coronavírus, somados a uma guerra de preços entre membros da OPEP. Para tentar entender toda a situação, vamos resumir: com a queda na demanda devido à paralisação da economia global, os países membros da OPEP tentaram um acordo para diminuir a produção e assim dar um alívio aos preços, via redução dos estoques. Mesmo com o acordo, a diminuição da produção não trouxe equilíbrio para a demanda, que ainda está fraca. Como a demanda ainda não mostrou reação, quem tinha combustível e não conseguiu dar vazão, ficou com o estoque preenchido e sem previsão de “escoamento”. Com isso, o espaço para guardar a commodity tornou-se um novo problema.

No vencimento do contrato de maio, ocorrido na segunda-feira (20), os investidores ainda estavam sem lugar para deixar o combustível. Assim, começou a corrida para tentar se desfazer do contrato e o pânico foi instaurado nos mercado de petróleo, chegando ao ponto de investidores terem que pagar para alguém assumir a responsabilidade do recebimento do óleo bruto.

Na terça-feira (21), o contrato com vencimento em junho passou a vigorar e os preços do WTI voltaram a um patamar mais coerente, mesmo que ainda em queda.

Mãe, cadê meu remédio?

No decorrer da semana, mais uma notícia veio para assombrar os mais otimistas com uma possível cura do vírus. A empresa Gilead Science, responsável pela fabricação do promissor remédio Remdesivir, anunciou o fracasso dos primeiros testes clínicos.

A notícia estende as incertezas e amplia a dificuldade de se encontrar uma solução rápida para o controle da epidemia. Com isso, as Bolsas apagaram parte das altas da possível volta gradual da economia esperada para as próximas semanas.