O que na semana passada parecia só um susto, nesta semana se tornou um pânico real. A rápida expansão do coronavírus a partir de uma província chinesa gerou apreensão global e praticamente congelou o gigante asiático.

Para conter o contágio, muitas empresas não abrem, fluxos de exportação e importação foram interrompidos e as pessoas têm se deslocado menos. Tudo isso tem um impacto direto na economia, o que agrava os temores que já corriam de uma possível desaceleração da economia mundial. Por aqui, o Ibovespa despencou mais de 4,0% na semana.

Ainda é cedo para antecipar os desdobramentos dessa crise, mas é fato que ela já tem abafado outras divulgações mais positivas, como o início da temporada de balanços corporativos, estreada por Cielo e Santander, ou os dados positivos de emprego e das contas públicas.

Por pior que a situação pareça, recomendamos calma aos investidores até que o pior tenha passado. Enquanto isso, vale conferir nossas indicações de melhores investimentos para este ano. Seguimos atentos!

Os destaques da semana:

  • Política e Economia: Taxa de câmbio bate recorde.
  • Corporativo: Concorrência leal,  Ânimo com Ânima e Temporada de Balanços.
  • Em destaque: Chuva e contágio na Vale.
  • Torocast: Ações e FIIs para 2020.
  • No exterior: Epidemia na China. 
  • Fique de olho: Juros brasileiros e o coronavírus.


Um olho nos juros o outro no câmbio.

Como em qualquer momento de turbulência como o atual, os investidores buscam refúgio em mercados mais seguros, o que significa um fluxo de capitais saindo dos países emergentes. Na crise atual, claro, não tem sido diferente, o que levou o dólar a bater recorde e romper o patamar de R$4,28.

Mesmo com a alta do câmbio e seus possíveis impactos sobre a inflação, as apostas do mercado são de novo corte na taxa Selic na reunião de semana que vem. Quanto mais baixos os juros, menos capital é atraído para o Brasil e mais elevada tende a ser a taxa de câmbio.

Por outro lado, a situação de paralisia na China leva a preocupações sobre o crescimento mundial e, por tabela, sobre o crescimento brasileiro. O corte nos juros viria então para tentar estimular ainda mais a economia nacional em meio à desaceleração do crescimento global.

Tudo isso ocorre num momento de dados econômicos mistos. Nesta semana, por exemplo, tivemos queda da relação entre a dívida pública e o PIB de 77,6% em novembro para 75,8% no final do ano passado. Além disso, o risco-país reduziu-se ao menor patamar em anos e o desemprego caiu para 11%. Mesmo assim, a confiança de que o Brasil está finalmente saindo da crise ainda não é total e o Banco Central seguirá acompanhando a necessidade de mais estímulos ao longo do ano.


2020-no-Azul

Cadê a concorrência?

O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) iniciou investigação sobre a possível formação de um cartel no mercado de aves e suínos no Brasil envolvendo a JBS (JBSS3) e a BRF (BRFS3). 

O motivo da abertura da investigação foram declarações de ambas as Empresas sinalizando a intenção de repassar os custos com o aumento do preço do milho aos consumidores. As duas Companhias negam qualquer tipo de prática de cartel ou irregularidades.


Ânimo com a oferta.

A oferta de ações realizada pelo Grupo Ânima (ANIM3) foi precificada em R$36,25 por ação, levando a Companhia a arrecadar mais de R$1 bilhão com a operação. 

Com um mercado animado, a demanda pelas novas ações foi elevada. A expectativa é de que a Companhia percorra um caminho de crescimento através de fusões e aquisições.


NOVA TEMPORADA NO AR!

É isso mesmo… Em meio a uma semana conturbada nos mercados internacionais, não podemos deixar de falar sobre a abertura da temporada de balanços do 4T19 aqui no Brasil.

As estreantes, Cielo (CIEL3) e Santander (SANB11), independente dos balanços, não escaparam do mal humor que foi soberano nos mercados por todo o mundo.

A Cielo apresentou um resultado refletindo a tendência contínua de queda nos lucros e aperto de margens com o crescimento da concorrência. O lucro líquido da empresa caiu quase pela metade de 2018 para 2019.

Já o banco Santander fechou 2019 com um lucro líquido de R$14,2 bilhões, mais de 16% superior ao do ano anterior. O crescimento no lucro não foi o suficiente para animar o mercado em uma semana de cautela: as ações do Banco registravam cerca de 5% de queda semanal na tarde de sexta-feira (31).


De BH à China.

Enquanto o tempo permanecia fechado na capital mineira, nesta semana as ações da Vale (VALE3) sofreram com um temporal que vinha não apenas do Brasil, mas também da China. Na segunda-feira (27), vimos as ações da Companhia caindo mais de 6% e o motivo foi que, além da queda do minério, as fortes chuvas que aconteceram na região de Barão de Cocais (MG) acionaram o nível 2 do plano de ação de emergência de barragens de mineração da mina Gongo Soco. 

Lá de fora, a tempestade veio em formato de vírus, mais especificamente coronavírus, e o medo de uma possível propagação fez com que os investidores colocassem o pé no freio. Aliás, no freio não, no acelerador, só que na ponta contrária. Caíram Petro, Itaú, Ambev, etc… mas no caso de Vale a situação é um tanto quanto delicada, já que o principal insumo da Empresa tem total ligação com a gigante asiática e uma possível proliferação do vírus pode impactar o crescimento da economia chinesa e, consequentemente, a Vale. 

Claro que há um cenário de incerteza paira no ar, mas o fato é que o mercado como um todo vinha subindo de forma muito forte desde meados do ano passado e uma hora ou outra a realização aconteceria. Semana que vem teremos retorno das negociações na China, retorno do Senado, retorno da Câmara e retorno das aulas. Vamos acompanhar para ver se os representantes de Brasília fizeram o dever de casa. 


Melhores investimentos 2020.

O Torocast desta semana é para aqueles que ainda não planejaram seus investimentos. No episódio #20, Daniel Herrera e Lucas Carvalho debatem as melhores ações para 2020. Já no episódio #21, os analistas Stéfany Oliveira e Thiago Tavares apontam os Fundos Imobiliários preferidos da nossa equipe.


A gripe virou pneumonia?

Na semana passada o mercado internacional ficou temeroso com o avanço do Coronavírus. Mas, esta semana, os impactos foram maiores, gerando volatilidade tanto no S&P, um dos principais índices americanos, quanto no Ibovespa. Já a bolsa chinesa estendeu o feriado e não teve negociações nesta semana. 

Infelizmente, a situação na China não para por aí. O Governo tomou algumas medidas para combater o avanço do vírus, como, por exemplo, o isolamento de alguns centros urbanos, o interrompimento do transporte público em algumas áreas e o fechamento de alguns pontos de comércio. 

Os números ainda estão aumentando. As pessoas que faleceram já superam os 200 e os infectados atingem em torno de 10 mil. A OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou que esta é uma situação de “emergência de saúde pública de interesse internacional”, denominação utilizada apenas para casos raros.

Os impactos na economia chinesa podem ser sensíveis, o que ainda leva a preocupações mundo afora. Ficamos na torcida pela melhora desse quadro.


Juros brasileiros e coronavírus.

Na semana que vem o investidor deve ficar atento à reunião do Copom, prevista para acontecer na terça-feira (04) e na quarta-feira (05). Nela, os membros do comitê decidirão qual será a taxa Selic vigente para o mês de fevereiro e para a metade do mês de março, quando o Copom se reunirá novamente.
 
Cabe lembrar que a Selic rege a rentabilidade de parte significativa dos investimentos de renda fixa e também impacta os juros pelo qual pessoas físicas e jurídicas tomam crédito. Dessa forma, alterações da Selic são capazes de trazer impactos de maior dimensão à economia brasileira como um todo, justificando acompanharmos de perto tal movimento.
 
Sabe-se que o Copom utiliza a taxa de juros básica para manter a inflação, medida através do IPCA, próxima à meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Por falar nela, observamos que o IPCA terminou 2019 ligeiramente acima do centro da meta, impactado, principalmente, pela alta dos preços da carne no final do ano. Por sua vez, tal alta foi causada pela gripe suína africana, que dizimou uma parcela relevante do rebanho chinês.
 
A elevação dos preços das proteínas animais pode ser vista como um efeito passageiro, de forma que ela não deve continuar pressionando a inflação por muito tempo. Consequentemente, o IPCA deve encerrar 2020 abaixo dos 4,00%, que foi a meta estipulada pelo CMN. De fato, de acordo com o relatório Focus divulgado semanalmente pelo Banco Central, a expectativa mais recente é de que a inflação fique em torno de 3,75%.
 
Diante disso, nossa expectativa é de que o Copom realize um corte de 0,25 p.p. na próxima quarta-feira. Além de estar em linha com a perspectiva inflacionária, o corte também estaria em consonância com a política monetária apresentada até então, que conduziu a Selic de 6,50% para os atuais 4,50% por meio de quatro cortes consecutivos de 0,50 p.p. 
 
Concomitantemente a isso, o FED optou pela manutenção das taxas de juros nos Estados Unidos na quarta-feira (29). Portanto, é provável que o Copom não opte por mais um corte de 0,50 p.p., pois os juros brasileiros se aproximariam ainda mais dos norte-americanos, o que poderia causar uma maior pressão sobre o câmbio.
 
Dito isso, gostaríamos de ressaltar os impactos mais relevantes para o investidor caso a Selic atinja os 4,25% ao ano no próximo dia 5. Se isso realmente acontecer, a renda fixa se tornará ainda menos atrativa, apresentando uma rentabilidade real (rendimentos descontados da inflação) inferior a 0,50% ao ano. Em outras palavras, o investidor da renda fixa verá seu poder de compra crescer de forma mais lenta. Com isso, poderemos ver a continuidade do fluxo de capital da renda fixa para a bolsa de valores, o que pode impactar positivamente os preços das principais ações.
 
Além disso, juros menores também fazem com que as empresas consigam tomar crédito mais barato. Parte desse capital deve ser utilizado na continuidade e, até mesmo, na expansão das atividades operacionais destas companhias, o que pode acabar se refletindo em maiores margens e, principalmente, no crescimento dos lucros. Por ser positivo para as empresas no médio e no longo prazo, espera-se que os preços acompanhem tal crescimento.
 
Em resumo, um novo corte de juros deverá ser positivo para a bolsa de valores. Por isso, seguimos acreditando que aqueles investidores com certo apetite ao risco devem manter uma parcela do seu capital de longo prazo em boas empresas, através da aquisição de ações.
 
Além da decisão da Selic aqui no Brasil, o investidor também deve ficar atento às consequências trazidas pelo novo coronavírus. Vimos que o aumento do número de pessoas contaminadas e o receio acerca da redução do crescimento das principais economias do mundo têm ocasionado a queda das bolsas mundo afora. Isso pode perdurar na semana que vem, caso a situação se deteriore.
 
Contudo, tais quedas não são, de tudo, negativas. Afinal, sabemos que a bolsa não sobe sempre nem avança em linha reta. Dessa forma, tais movimentos representam, para os investidores de longo prazo, oportunidades para comprar ações de excelentes empresas a um preço menor.