Passado o choque com a saída do então Ministro da Justiça na semana passada, o clima em Brasília parece ter diminuído de temperatura. Com isso, o Ibovespa se recuperou, voltou a superar os 80 mil pontos e segue de olho nos desdobramentos da pandemia ao redor do mundo.

Mesmo com dados ruins de PIB e desemprego nos Estados Unidos, o que prevalece é o otimismo com os anúncios das primeiras medidas de relaxamento da quarentena em alguns países. É provável que ainda estejamos longe desse ponto aqui no Brasil, mas os sinais de queda do número de casos em locais tão fortemente afetados como Itália e Espanha já são um alento. As fortes medidas de estímulo nas principais economias do mundo também.

O que não foi um alento foi o anúncio do fim da parceria entre Boeing e Embraer no fim da semana passada, o que pressionou as ações da empresa brasileira. Enquanto ela busca novas saídas, a temporada de balanços do primeiro trimestre já começa a trazer os primeiro impactos nos resultados das empresas. Ainda que apenas março tenha sido afetado diretamente pela quarentena, já é uma sinalização importante do que podemos esperar para os dados que virão pela frente.

Os destaques da semana:

  • Política e Economia: A “não-saída” de Guedes.
  • Corporativo: Espírito brasileiro e o covid-19 na temporada de balanços.
  • Torocast: Crise política.
  • Em destaque: Embraer vai ter um voo forçado?
  • No exterior: Balanços, dados econômicos e remédio antiviral.

Paulo Guedes fica

Ok, não dá pra ter tanta certeza assim, mas o Governo vem dando diversas sinalizações de que o Ministro da Economia, Paulo Guedes, não deve pular fora do barco como fez seu ex-companheiro da Esplanada dos Ministérios, Sérgio Moro.

A saída dele, que poderia fazer ruir também a pauta liberalizante do Governo, com suas reformas fiscais, privatizações e redução do papel do Estado na economia, preocupa bastante o mercado financeiro. Com a diminuição desse risco, o dólar recuou mais forte nesta semana.

A queda do câmbio é ainda mais expressiva se levarmos em conta que as projeções atuais indicam que a taxa Selic deve ser reduzida pelo menos mais 0,75 p.p. chegando aos 3% ao fim de 2020. A inflação tem se mostrado muito fraca, dada a baixa demanda resultante da quarentena.

Vale lembrar que os juros baixos tornam o País menos atrativo para o capital externo no movimento chamado de carry trade: captar dinheiro a taxas modestas nos países centrais e aplicá-lo em taxas mais altas em países emergentes, como o Brasil. A saída de investidores estrangeiros tem sido um componente central da alta de mais de 35% da moeda americana frente ao real neste ano.

Por isso, o recuo do câmbio mostra que a poeira deu uma abaixada, ainda que as intervenções do Banco Central tenham um papel relevante no movimento dessa semana. Se novos focos de incêndio não surgirem, o tumulto pela saída de Moro deve ficar pelo caminho, mas ainda é muito cedo para ter tanta certeza.

Brasileiro não desiste nunca

Após a notícia de que uma possível fusão entre Eneva (ENEV3) e AES Tietê (TIET11) fora descartada pelo conselho da AES Tietê por não concordar com os termos da proposta e com uma suposta incompatibilidade de negócios e estratégias entre as Companhias, uma nova proposta pode estar a caminho.

A Eneva queria combinar negócios com a AES Tietê, gerando assim uma gigante do setor de energia. A proposta da Eneva buscava criar uma empresa maior, diversificada e com menor custo de capital, capturando sinergias que uma união traria. A ideia da Eneva era de pagar pela operação 40% em dinheiro e o restante em ações da própria Empresa, o que acabou não agradando muito a AES, controladora da AES Tietê.

A Eneva tinha anunciado a desistência da operação em função da resistência da AES em continuar as tratativas e afirmar que o negócio não poderia ir pra frente sem seu aval, já que detinha mais de 50% das ações ON (ordinárias) da Tietê. A B3 (B3SA3) soltou um ofício, que inclusive foi criticado pela AES por interferir na disputa entre as elétricas, que diz que no segmento de listagem da TIET11, em caso de assembleias para deliberar sobre fusões ou incorporações, tantos os acionistas de ações ON quanto os de ações PN tem direito a votar.

Com o tratamento equitativo entre acionistas ON e PN, a AES não teria mais 50% do capital votante, então a fusão poderia ocorrer mesmo contra a vontade da empresa controladora. Agora, a Eneva volta a estudar a possibilidade de executar a operação e já estuda uma nova proposta a ser apresentada.

Começa mais uma temporada de balanços

Na sexta-feira passada (23), a Hypera (HYPE3) estreou a temporada de divulgação de resultados referentes ao 1º trimestre de 2020, que poderá oferecer uma visão sobre o quanto o Covid-19 e a quarentena têm impactado os resultados das empresas. Além do resultado da Hypera, que já mostrou alguns impactos do coronavírus, tivemos a divulgação de resultados importantes ao longo dessa semana.

A Multiplan (MULT3), operadora de shoppings centers, divulgou seus resultados e já nos mostra parte dos impactos do vírus na economia. Em função de bom desempenho em janeiro e fevereiro, medidas de reduções de custos e despesas e alguns acontecimentos não-recorrentes, a Empresa apresentou um crescimento forte no lucro líquido. Entretanto, ao destrinchar os dados operacionais, como SSS (Vendas das mesmas lojas), receita de aluguéis e de estacionamento, vemos que o fechamento dos shoppings em meados de março impactou de forma relevante os resultados.

Também divulgaram resultados ao longo da semana:

Os impactos da crise política

Depois da saída do agora ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, balançar a Bolsa de Valores e sinalizar uma crise política que poderia comprometer a recuperação do mercado acionário, nossos analistas, Daniel Herrera e Lucas Carvalho, explicam o que podemos esperar do futuro e como você, investidor, deve se ajustar a essa nova turbulência. Vale a pena conferir o Torocast #33!

Avião sem asa

Assim é a Embraer (EMBR3) sem a Boeing. O plano de voo seguia bem traçado, “não tinha como dar errado”. A Boeing estava disposta a comprar 80% do segmento de aeronaves comerciais da Embraer e, além de tudo, previa uma joint venture para a fabricação de aviões militares. Americanos e brasileiros nunca estiveram tão bem alinhados, até que uma turbulência tomou conta do cenário e, da noite para o dia, o acordo foi cancelado.

De um lado, temos a Boeing afirmando que algumas “condições materiais” não foram cumpridas dentro do prazo. Do outro, temos a Embraer dizendo que o acordo só não aconteceu porque a Boeing não quis. Quem está certo nessa história? Caso a empresa de aviação brasileira consiga comprovar seu lado, poderá receber uma indenização de cerca de U$100 milhões.

Mas a verdade é que, certa ou errada, o tempo ficou nublado para Embraer e uma mudança na rota de voo precisa acontecer o quanto antes. Há menções de uma possível negociação com uma empresa chinesa, que já vem mostrando interesse em crescer no mercado de aviação. Outra saída que está sendo estudada é o projeto de reestatização da Embraer, mas essa ainda tramita no Senado.

Os mais otimistas acreditam que o fim do acordo com a Boeing torna-se uma oportunidade para a Embraer fechar melhores negócios. Os mais pessimistas defendem que, sem uma gigante dando apoio financeiro, a Embraer pode ter maiores problemas por conta do momento delicado para o setor de aviação, fora os gastos que a Companhia já vinha tendo para atender às demandas da operação. É hora de ficar quietinho esperando o desenrolar dessa história, afinal, ninguém quer entrar num voo sem rota.

PIB precisará de respirador

A semana começou com os investidores ainda temerosos com os desdobramentos dos efeitos do coronavírus na economia. As Bolsas nos EUA subiram com a expectativa de maior flexibilidade do lockdown das principais economia e com notícias de que o Banco do Japão compraria títulos do governo e dívidas corporativas. As ações do setor financeiro puxaram o S&P 500 para o maior nível desde 10 de março.

Contudo, o principal índice americano devolveu os ganhos já na terça-feira (28), pressionado pelas ações do setor de tecnologia. A temporada de balanços também preocupa e puxa negativamente o desempenho do mercado americano depois de algumas empresas - como PepsiCo e Caterpillar - cancelarem o guidance para 2020 por conta dos impactos do coronavírus.

Depois das movimentações vistas no começo da semana, os olhos se voltaram para o desfecho da reunião do FOMC, dados do PIB e pedidos de seguro desemprego. Banco Central norte-americano deve manter o patamar da taxa de juros entre 0% e 0,25% a.a. Jerome Powell reforçou a ideia de que há a necessidade de dar maior suporte à economia e de que o BC usará todas as ferramentas possíveis para que a confiança do consumidor retorne.

O PIB dos Estados Unidos foi o dado mais preocupante. A expectativa era de haver uma contração de 4% na taxa anualizada. O dado veio com 4,8% de queda, indicando que a economia deve sofrer mais que o esperado com os impactos da crise causada pelo vírus. Outro dado importante foi o de pedidos de seguro desemprego, que totalizaram 3,8 milhões, acima da estimativa de 3,5 milhões.

Na Europa, Christine Lagarde, presidente do BCE (Banco Central Europeu), declarou que a economia do bloco pode recuar até 12% em 2020, além de anunciar a decisão de manter a taxa de juros inalterada. O BCE irá diminuir o custo de empréstimos emergenciais para o setor bancário, criando mais uma linha de injeção de liquidez na economia.

O remédio no fim do túnel

A notícia que somou ao bom humor dos mercados esta semana tem nome: Remdesivir. Na semana passada, houve um certo desânimo nas Bolsas globais depois que a biofarmacêutica responsável pela criação do remédio, a Gilead Sciences, disse que os primeiros testes não tiveram o efeito esperado.

Contudo, as notícias atuais são de que os novos testes têm mostrado resultados promissores, ajudando os pacientes a se recuperarem mais rapidamente. O remédio, que é estudado desde 2015, já havia mostrado eficiência contra o ebola na África. Basicamente, seu efeito atrapalha o processo de reprodução do vírus, fazendo com que ele replique também a molécula da droga.

Segundo o jornal americano The New York Times, o FDA (Food and Drug Administration), agência responsável pela controle e segurança da saúde pública e alimentar nos EUA, planeja anunciar a autorização de uso emergencial do Remdesivir em breve.