Gostaria de ter boas novas para acrescentar nessa semana, mas acho que não vai ser possível. Depois de um respiro na semana passada, o Ibovespa voltou a sofrer em meio ao contágio ainda exponencial do coronavírus no mundo. 

No Brasil, as medidas de enfrentamento seguem a passos lentos e são bem pouco ousadas. Nos Estados Unidos, que se tornou o país com o maior número de infectados até o momento, Donald Trump passou a adotar uma postura mais dura em favor da quarentena, ao mesmo tempo em que acenou para uma possível melhora do mercado de petróleo nas próximas semanas. A Petrobras, inclusive, foi a surpresa positiva, com alta de mais de 15% na semana.

Mas não é só para commodities que o investidor deve olhar nesse momento. No Torocast dessa semana, por exemplo, destacamos algumas empresas do setor de varejo. E tem também a temporada de balanços, lembra dela? Parecia que tinha acabado, mas as últimas empresas ainda estão soltando seus resultados e tem sempre oportunidades para prestar atenção.

Os destaques da semana:

  • Política e Economia: Freio de mão puxado.
  • Corporativo: Quarentena diferente e abastecimento de comida.
  • Em destaque: Petróleo e Petro em alta.
  • Torocast: Como fica o varejo?
  • No exterior: Trump muda discurso, seguro desemprego e guerra do petróleo.

Pouco mudou.

Seguimos de olho nas medidas apresentadas pelo Governo para tentar conter os impactos econômicos da quarentena do coronavírus. Porém, de semana passada pra cá, pouca coisa nova foi de fato anunciada.

No front do crédito, deve girar mesmo em torno de R$300 a R$350 bilhões entre liberação dos depósitos compulsórios e linhas de crédito direto disponibilizadas pelos bancos públicos. É muito pouco e aumentam os relatos de empoçamento de liquidez no mercado interbancário, ou seja, o dinheiro não está chegando no tomador de crédito porque a percepção de risco dos bancos é muito alta em meio a tamanha incerteza sobre o futuro.

Em relação à renda dos trabalhadores, foi de fato aprovado o auxílio emergencial de R$600,00 para trabalhadores informais, contudo, o projeto ainda não foi aprovado pelo Executivo e deve começar a ser pago apenas na segunda quinzena de abril. Quanto mais tempo demora, mais tempo as pessoas continuam na rua para buscar seu sustento, maior tende a ser o contágio do vírus e maior também a dificuldade de estancar a epidemia lá na frente.

Para os trabalhadores formais, começou a vigorar a possibilidade de redução da jornada de trabalho (com redução proporcional dos salários) ou a suspensão temporária de contratos. Diferente do texto original, a medida atual inclui uma compensação por parte do Governo para que o trabalhador não assuma a redução integral dos salários. Mesmo assim, os cortes podem ser superiores a 50% dos salários originais, o que representa uma redução importante do poder de compra.

A ideia de fato alivia as contas das empresas, especialmente a das menores, mas a depender do tempo que os empregados ficarão com sua renda reduzida, o endividamento das famílias pode aumentar de forma significativa e, mais uma vez, dificultar a recuperação econômica no futuro.

Não é que as medidas não estejam no caminho certo, elas estão. A grande questão é que são em alguns casos tímidas, em outros, lentas. A capacidade de que elas mitiguem a crise (que já é uma realidade) dependerá diretamente da velocidade e do vigor das mesmas

Ficar em casa? Difícil neste caso.

Não é mentira, mas no dia 1º de abril a Vale (VALE3) elevou o grau de emergência da Barragem Doutor, em Ouro Preto - MG, do nível 1 para o nível 2. Segundo a ANM (Agência Nacional de Mineração), a evacuação é obrigatoriamente no nível 3 de emergência, mas em Minas Gerais, com o acionamento do nível 2, por precaução, são iniciados os programas de evacuação.

Com isso, cerca de 60 famílias vão ter que deixar suas casas e vão ser conduzidas para hotéis da região, com as despesas sendo pagas pela Mineradora. É uma medida preventiva, conservadora. Segundo a Vale, não houveram alterações físicas na barragem, mas, por via das dúvidas, essas famílias vão ter que passar a quarentena longe de casa.

Distanciamento laboral.

A quarentena e o distanciamento social já não são novidade pra ninguém. Entretanto, enquanto muitos podem trabalhar em regimes de home office, por exemplo, alguns trabalhadores de serviços essenciais não podem ter esse “luxo”. Médicos, policiais e bombeiros são alguns dos exemplos, mas agora vamos falar sobre os trabalhadores que saem de casa para garantir o fornecimento de alimentos.

Sindicatos vêm se reunindo e trabalhadores de frigoríficos cobram por ações por parte das empresas para garantir a saúde dos funcionários.  Isso tem afetado empresas como:

​​​​​​​Enquanto, por um lado, a saúde dos funcionários fica em perigo, por outro, fica o abastecimento de carne no mundo.

Medidas como higienização da operação e horários de almoço alternados já foram tomadas, mas diversos trabalhadores ainda temem a contaminação. No Uruguai, sindicatos reivindicam medidas como maior distanciamento entre funcionários, o que pode impactar a produção, e determinaram uma paralisação de 8 dias, que atinge unidades da Minerva e da Marfrig.

Chegando ao fim.

Estamos chegando ao fim da temporada de balanços do 4º trimestre de 2019, que acabou sendo ofuscada pelo cenário de pandemia. A situação inclusive adiou a divulgação dos resultados de algumas empresas, como a CVC (CVCB3), levando a CVM a prorrogar o prazo para divulgação das informações.

A Cogna (COGN3) sentiu efeitos de formatura de alunos do FIES, incorporação de negócios com rentabilidade inferior e aumento das despesas financeiras, que em conjunto acarretaram em uma redução de cerca de 50% no lucro líquido ajustado em 2019.

Divulgaram também seus resultados:

Combustível nas redes sociais.

Um tweet, mas não um tweet qualquer, um tweet gringo, mais especificamente, um tweet norte-americano: Donald Trump, o dono dos tweets avassaladores. 

Era quinta-feira (02), semana quase no fim, até que o presidente da terra do Tio Sam soltou em seu Twitter: “Conversei com o Mohammed bin Salman (herdeiro saudita) e espero um acordo de corte de produção de 10 milhões de barris de petróleo por dia entre o reino árabe e a Rússia, aliás, 10 não, 15 milhões.” (Não foi exatamente isso, mas foi o que ele quis dizer). Foi o suficiente para Petrobras (PETR4) subir mais de 15% na esteira da disparada do petróleo. 

Essa saga entre Rússia, Arábia Saudita  e Trump já foi falada há algumas semanas atrás, mas na próxima seção vamos explicar melhor sobre o novo episódio que envolve alta do petróleo e reunião da Opep. Aqui queremos destacar a performance da Petrobras no meio disso tudo. 

Voltando à protagonista nacional, essa puxada da Petrobras conseguiu aliviar o movimento de queda do Ibovespa, mas não foi o suficiente para dizermos que “seus problemas acabaram”. Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, veio a público trazer a má notícia de que a demanda por gasolina já havia caído de 50% a 60% por conta da disseminação do Covid-19 e que a produção de alguns ativos na Bacia de Campos, e até mesmo do pré-sal, poderiam ser cortadas justamente pelas quedas na procura.

Agora resta para a Petroleira nacional aguardar a reunião da Opep pra ver qual o futuro da produção do petróleo mundo afora. Mas também resta ficar atento às redes sociais do digníssimo Sr. Trump, pois, como vocês viram, um tweet foi o suficiente para animar os investidores. 

O que que sobra?

Quem viu a Bolsa caindo ao longo de março deve achar que o poço não tem fundo, mas tem sim. Escondidas atrás de muito barulho, há sempre as empresas que fazem melhor seu dever de casa e, se não podem se beneficiar da atual crise, pelo menos devem sofrer menos durante esse período turbulento. Esse é o tema do Torocast #30, no qual bati um papo com nosso analista Daniel Herrera sobre as oportunidades no setor de varejo. Confere lá!

A fuga do risco.

Face ao aumento do número de casos e mortes provocados pela pandemia de coronavírus, os mercados globais apresentaram baixa significativa, refletindo os temores, que ainda pairam, na forma de aversão ao risco. No mundo, o número de casos confirmados da COVID-19 ultrapassa 1 milhão e o número de mortos está acima de 50 mil. Autoridades mundiais, que antes defendiam a continuidade da atividade econômica em detrimento do isolamento social, têm mudado a visão e demonstrado preocupação com o avanço da disseminação do coronavírus.

No último domingo (29), o Presidente dos EUA, Donald Trump declarou que as medidas de isolamento social serão estendidas até 30 de abril. Trump também alertou que os EUA terão “duas, três semanas muito duras, um inferno” pela frente. E disse que não considera o fechamento da cidade de Nova York, mas enfatizou que “a prioridade número 1 é a vida, a número 2 é a economia”. Já o Secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, declarou que o Governo americano está inclinado a demandar mais dinheiro ao Congresso, caso o pacote de US$2 trilhões se mostre insuficiente para combater os efeitos sobre a economia, demonstrando preocupação principalmente com pequenas e médias empresas.

Dados econômicos mostram alguns dos problemas que os países já estão enfrentando como consequência do coronavírus. O Relatório de Emprego ADP do setor privado dos EUA informou que, no mês de março, foram cortados 27 mil postos de trabalho na economia estadunidense. Enquanto o número de pedidos de auxílio-desemprego na maior economia do mundo aumentou do recorde histórico de 3,28 milhões na semana encerrada no dia 20 de março para mais de 6,648 milhões na semana passada. Os EUA também registraram perda de 701 mil empregos, em março

Na zona do euro, o PMI (índice dos gerentes de compras) despencou de 51,6 pontos em fevereiro para 29,7 em março, segundo a Markit, o que representa a maior redução da atividade econômica em 20 anos na Itália, Espanha e França, as 3 nações que mais têm sofrido com o coronavírus por lá. Já na China, o PMI Caixin de serviços subiu mais que o previsto em março, de 26,5 para 43, ainda abaixo dos 50 pontos, o que indica contração da atividade no setor.

Após Donald Trump ter dito que acredita que Rússia e Arábia Saudita irão fazer um acordo sobre a guerra de preços do petróleo em um futuro não muito distante, a commodity apresentou rally de alta: o barril do Brent chegou a disparar 36%, na quinta-feira (02). Trump espera que haja um corte de pelo menos 10 milhões de barris por dia na produção de petróleo. A Arábia Saudita convocou reunião emergencial da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (OPEP+) para dialogar, na próxima segunda-feira (06), sobre um corte na produção de, no mínimo, 6 milhões de barris por dia. Os sauditas parecem querer que os principais produtores também participem do corte, o que inclui produtores dos EUA e do Canadá.